Por Vitor Pinheiro
Gosto muito da ideia de Sartre quando diz que necessitamos do outro para ‘’ser’.’ Para ele, nós não nascemos com uma personalidade pronta, nós nos construímos através das experiências. Isso significa que o nosso ciclo social, a nossa família e as pessoas ao nosso redor são fundamentais para definir quem somos. Se você tivesse nascido em outra família ou criado em outro ambiente, você seria uma pessoa totalmente diferente, pois os estímulos, os julgamentos e as referências do “outro” teriam moldado a sua identidade de outra forma. Resumindo: nós somos o resultado da nossa história com as pessoas que nos cercam, pra mim isso quer dizer a vida não tem sentido sem o outro, e mesmo que você venha me dizer que é uma pessoa antissocial e que viveria sem ninguém nesse mundo eu pagaria muito para ver, porque até a solidão é algo que existe por causa do outro. Quem se isola e diz “gosto da solidão” só consegue fazer isso porque conhece o peso da sociedade e escolhe se afastar dela. A solidão é, ironicamente, uma relação com o outro pela recusa.
A filosofia de Eclesiastes também acrescenta muito a essa ideia de Sartre. O sábio bíblico passa capítulos testando tudo o que a sociedade valoriza: riqueza, prazer, sabedoria e trabalho. O autor conclui que tudo isso “debaixo do sol” é correr atrás do vento quando Eclesiastes esvazia o valor das ambições solitárias, ele resgata o valor do outro. Digo tudo isso porque vejo muitas pessoas que não estão dispostas a deixar de lado seus sonhos, carreiras e metas em prol dos outros. Acredito que, com base nessas duas ideias, só se existe com o outro. Tudo o que você é, o que o outro é e o que vocês podem ser juntos só passa a existir a partir dessa relação. Por isso, sempre que você tiver a oportunidade de amar alguém em algum momento da vida, não permita que a quantidade absurda de ruído ao seu redor o atrapalhe de escolher o outro. E não digo isso apenas para romances, que geralmente recebem mais importância, mas para as amizades também.
Agora, deixando um recado para meu amigo Maschi e para todos que quiserem: Não sei se já passou por sua mente ou se passa atualmente a pressão social de não saber qual ofício escolher para o resto da sua vida. Creio que isso reflete não uma incerteza ou um medo de encarar algo, mas sim uma enorme valorização da sua parte pelo outro, porque você entende que nenhum trabalho no mundo, por mais prestigioso ou lucrativo que seja, consegue preencher o ser humano da forma como os laços afetivos e as relações reais preenchem. A dúvida ou o desapego seu em relação ao “ofício perfeito” nasce do fato de saber que o verdadeiro sentido da vida está nas pessoas, e não em um crachá.
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