Cópias Autênticas

Por Vitor Pinheiro *

Outro dia, um amigo meu, mais novo, chegou pra mim e mais alguns amigos dizendo que queria muito fazer as coisas da maneira que os amigos dele fazem e acham legal, mas perguntou se estava errado em “copiar”, ser “igual” àquele amigo. Então, eu apenas disse: claro que não; pelo contrário, sempre adote as coisas boas das pessoas próximas a você, e que sejam apenas as coisas boas.

Penso que dentre as muitas pressões sociais que a gente sofre hoje, parece que criaram uma nova: a necessidade de sermos únicos. Mas como assim? A gente já não é único por natureza? Sim, mas pelo jeito, existir apenas um de você no mundo não é mais o suficiente. Nós estamos sendo forçados a sempre escolher “caminhos” diferentes, estilos diferentes, gostos musicais específicos, gerando uma força gigante que obriga a gente a ser os outros, e não nós mesmos.

E na real, eu creio que isso se constrói desde a escola. É lá atrás que a gente começa a se apegar a ser algo para o próximo e não para si mesmo. A gente se molda para o outro gostar, para o outro aceitar, e esquece de olhar para o que a gente quer de verdade. Isso acaba causando um efeito retardado pesado na nossa própria individualidade, porque a gente deixa de ser levado pelo que a vida constrói na gente de forma natural.

E o pior é que as redes sociais pioraram esse problema. O algoritmo não quer você, ele quer uma versão de você que engaja, que performa, que vende. Então a pressão não vem só dos colegas de escola ou da família — ela vem de uma máquina que recompensa quem se encaixa em uma caixinha e pune quem sai dela. A gente acaba inconscientemente editando a própria personalidade pra ganhar like, pra ganhar seguidor, pra ganhar aprovação de gente que nem conhece. É uma corrida sem linha de chegada, porque sempre vai ter alguém mais “único”, mais “autêntico”, mais “diferente” do que você na tela.

Para mim, um dos efeitos mais negativos disso tudo é ver as pessoas hoje adotando personalidades inteiras de personagens, de influencers e de celebridades. A pessoa vira um personagem para agradar os outros(ou tentar), uma cópia perfeita de alguém que ela viu na tela. E aí vem o paradoxo mais cruel: ela está tentando ser a única copiando alguém. A identidade vai sendo construída de fora pra dentro, em vez de dentro pra fora. E quando alguém tenta te tirar essa máscara — te questionar, te desafiar — dói, porque você já não sabe mais o que tá embaixo dela.

A saída não é simples, mas começa com uma coisa: parar de fugir do silêncio. É no silêncio, longe da tela e da opinião dos outros, que a gente começa a ouvir o que é genuinamente seu. Não tem fórmula, não tem estilo certo — tem o processo, muitas vezes desconfortável, de se perguntar “isso é meu ou eu aprendi que devia gostar disso?”

O que seria do seu artista favorito sem milhares de pessoas completamente únicas que, por algum acaso da vida, compartilham dos mesmos gostos que você? A conexão que a música, a arte e a cultura criam não acontece apesar das nossas similaridades — ela acontece por causa delas.

Por último, tente fazer esse exercício: imagine que a sua personalidade é um mercado. Você chega nesse mercado e escolhe tudo que gosta, tudo que admira, tudo que quer carregar com você. Só que tem uma coisa — as coisas ruins, os defeitos, as contradições, já vieram junto quando você nasceu, já estão dentro do estoque. Você não escolheu elas, mas elas são suas. Junte tudo isso — as escolhas, as marcas, os erros — e pronto. Você tem um ser completamente único. Não porque tentou. Mas porque simplesmente existiu.

* Mantenho este blog desde 2004, desde antes do Vitor nascer. Hoje, tive o prazer de publicar seu primeiro texto.


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