Fernando Pessoa,
Quero falar-lhe sobre o poema “Apontamento” de modo específico. Antes disso, porém, preciso dizer que leio os seus textos há mais de quinze anos. Não os leio por gostar de poesia em geral, mas porque os encontrei por acaso e com eles me identifiquei. Ler os seus escritos é como ler a minha própria mente. Não que eu consiga escrever como você, mas sinto como se a sua inspiração conseguisse dar voz exatamente àquilo que eu gostaria de dizer.
Sei que isto não é novidade nem exclusividade minha, pois foi precisamente isso que fez — e continua a fazer — com que os seus textos se espalhassem pelo mundo. Assim, a partir da sua breve vida em Portugal, eles permanecem vivos. Como muitos, identifico-me frequentemente com as criações dos seus múltiplos heterônimos e com as suas reflexões filosóficas.
Quero confessar-lhe que não é simples para mim declarar essa identificação, visto que sou cristão protestante e, compreensivelmente, a sua obra transparece agnosticismo ou, ao menos, um aparente ceticismo perante a realidade — como fica tão evidente no poema ao qual me refiro. As minhas emoções e vivências foram tocadas por essa composição antes mesmo da minha razão. Só após relê-la várias vezes alcancei a compreensão que hoje pretendo partilhar consigo.
Começo pelo verso: “Tenho mais sensações do que quando me sentia eu”. A vida — talvez a criada à qual você alude — também me derrubou a certa altura, e me despedacei. A partir dali, passei igualmente a sentir de modo mais amplo. Ao ver-me menos singular, percebi-me habitado por múltiplos “eus” que pensam e sentem de maneiras diversas. Ao encarar-me em cacos, testemunhei a fria indiferença do cosmos; todavia, ao contrário de você, senti-me impelido a clamar a Deus em busca de sentido. A demora na resposta levou-me, num primeiro instante, a partilhar da sua ironia sobre a condição de estar em pedaços.
O seu poema fez-me refletir sobre a benevolência da criada ao recolher os fragmentos. Afinal, tratava-se de apenas mais um vaso na imensa escadaria do cosmos. O que representa um vaso diante dessa vastidão? Um ex-vaso, então? Meros cacos. Ainda assim, a minha alma permanecia suspensa entre os astros, sob o olhar atento do Criador. Creio que Ele pensa isto: cuida-se do caco de barro não porque este Lhe deva algo, mas porque tanto a integridade do vaso quanto a sua ruína Lhe pertencem.
Como pude perceber isso? Justamente pelo zelo da criada, por esse cuidado sutil e aparentemente desnecessário com um simples fragmento quebrado. Lembrei-me então de uma cena antiga, narrada pelo profeta Jeremias, que desceu à casa do oleiro e viu um vaso de barro estragar-se sobre a roda. O artífice, contudo, não jogou fora a massa arruinada; recolheu o barro e, com a mesma matéria quebrada, moldou um vaso novo, conforme pareceu bem aos seus olhos.
Você viu na queda a tragédia irrevogável do caco inútil largado na escadaria do cosmos. Eu vejo as mãos do Oleiro trabalhando pacientemente sobre a ruína da condição humana. Hoje, ainda me reconheço caco, mas um caco que se sente composto com outros — não apenas recolhido do chão, mas redimido para fazer parte de algo vivo, uma tapeçaria, um mosaico composto pela graça. Sinto que somos algo mais do que uma peça quebrada e que há para nós um lugar definitivo no cosmos. Mas essa reconstrução do indivíduo a partir da ruína é apenas o começo da jornada — e sobre como esses cacos se relacionam entre si, deixo para conversar consigo à luz de um outro texto seu que também me acolhe.
22/10/26 — Voo de Lisboa para Sevilha
Álvaro de Campos – APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
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