Caminhos inescrutáveis

Segundo o memorável Reverendo Júlio Andrade Ferreira, ainda um dos teólogos mais contemporâneos de nossa época e região, falar sobre a predestinação é falar sobre caminhos inescrutáveis. Em seu pequeno livro, com este mesmo nome, o Rev. Júlio apresenta este ponto da nossa doutrina reformada, não como um mármore frio, impessoal e gelado, como muitos teólogos insistem e até parecem sentir prazer em apresentar, mas ele o faz com uma empatia humana e uma flexibilidade conceitual e bíblica em extinção.

Primeiro ele apresenta o ser humano e sua situação no universo, como ser que ao mesmo tempo é dependente de sua carga hereditária, de seus instintos, de suas emoções e, em uma dimensão exterior, é dependente de sua família, de sua cultura, de seu Estado e de todo o cosmo que o coloca em forte sujeição. Em contraste a essa sujeição, o autor nos apresenta como seres responsáveis dentro dos limites deste condicionamento biológico, social e cultural. Ou seja, sujeitos a estes limites, somos responsáveis pelos nossos atos, como seres autônomos e conscientes. Em suma, todo condicionamento não nos priva, nem nos isenta de nossas responsabilidades existenciais.

Isso posto, o Rev. Júlio abre a Bíblia diante de nós, para mostrar como sua análise da humanidade se apresenta ali, com todos os paradoxos que tanto Velho, como Novo Testamentos não nos privam de mostrar. Afinal, temos que “…operar nossa salvação com temor e tremor” mas “…é Deus quem efetua em nós tanto o querer como o efetuar”. Como resume o autor: “Biblicamente, somos condenados à liberdade e predestinados à responsabilidade”. Somos chamados para, de modo ativo, vigiar, ao mesmo tempo que somos admoestados a, passivamente, orar e entregar.

Neste clima paradoxal, a Bíblia, com persistência e consistência, revela Deus elegendo indivíduos, elegendo uma nação, elegendo sua Igreja. Como disse Jesus: “E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia”. (João 6:39). Também como escreveu Paulo: “Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado”. (Efésios 1.4-6).

Somos, portanto, seres autônomos e responsáveis que se encontram condicionados também aos desígnios de Deus, assim como somos condicionados a diversos outros fatores. Estamos sujeitos aos propósitos de Deus, assim como todo Cosmo está sujeito ao seu decreto. Como disse o Rev. Júlio: “…à submissão é que devemos chegar, não à especulação”. Submissão que, iluminada pela inspiração do Espírito Santo e a certeza da eleição em Cristo Jesus, deve nos levar à repetir as palavras de Paulo em sua apoteose teológica:

”Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” “Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?” Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém.’

Romanos 11:33-36

Bibliografia: Caminhos Inescrutáveis, por Júlio Andrade Ferreira.


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