Frutos alados

Nos últimos anos tenho me afeiçoado cada vez mais pelas árvores. O Parque Ecológico onde costumo caminhar é repleto de Tipuanas, uma árvore muito comum aqui em Campinas, SP. Para o olhar desatento, é apenas uma árvore urbana frondosa que tinge as calçadas de amarelo. Mas, para quem gosta de investigar como o Criador assina sua obra na natureza, a Tipuana esconde uma aula de física e missiologia.

Fiquei fascinado pelos seus frutos, as sâmaras. Diferente de uma fruta pesada que cai verticalmente sob a tirania direta da gravidade (buscando o caminho mais curto para o chão), a sâmara da Tipuana foi projetada com uma “asa”. Ela contém uma engenharia biológica refinada. Ao se desprender do galho, ela não despenca; ela entra em autorrotação. O formato da semente cria uma zona de baixa pressão acima dela enquanto gira, gerando sustentação — o mesmo princípio das pás de um helicóptero. O objetivo dessa “tecnologia” não é vencer a gravidade para sempre, mas retardar a queda o suficiente para que um outro elemento entre na equação: o vento. Se ela caísse em linha reta, aterrissaria na sombra da árvore-mãe. Ali, a competição por luz e nutrientes seria fatal. Para que a vida continue, a semente precisa ir para onde a árvore ainda não está. Ela precisa da distância.

Vejo aqui uma parábola viva para a Igreja. Frequentemente, construímos nossas comunidades para serem pesadas, estáticas, acumulando recursos e pessoas na “sombra” segura de nossas instituições e tradições. Mas a “aerodinâmica” do Espírito (o Pneuma) nos desenhou para o voo. Não fomos chamados para o acúmulo centralizado, mas para a força centrífuga da missão. Uma igreja que não aproveita o Vento do Espírito para ser levada a novos solos está lutando contra sua própria natureza projetada. A semente que se recusa a voar é a semente que desperdiça seu potencial de se tornar floresta.

Essa reflexão me leva inevitavelmente à Parábola do Semeador. Se analisarmos aquela narrativa sob a ótica de um agrônomo moderno ou de um gestor de eficiência corporativa, o semeador de Jesus parece, no mínimo, incompetente. Talvez “louco”. Quem, em sã consciência, desperdiça sementes jogando-as à beira do caminho? Quem arrisca recursos entre pedras e espinhos? A lógica humana exige ROI (Retorno Sobre Investimento), estudo de solo e garantia de eficácia antes da ação. Mas a lógica do Reino é a da superabundância da Graça. O Semeador não está preocupado com a economia da semente, mas com a abrangência da semeadura. A ele, não importa se o solo parece estéril aos olhos humanos; a função dele é garantir que a semente chegue lá.

Nossa vocação, como cristãos e comunicadores do Evangelho, é entender essa física do Reino. Precisamos ser leves o suficiente para que o Vento nos mova, e estruturados o suficiente (na doutrina e na fé) para que esse movimento não seja caótico, mas proposital. Que possamos sair da sombra confortável de nossas “árvores-mãe” e permitir que o Senhor nos sopre para os terrenos áridos, pedregosos e espinhosos deste mundo. Porque é lá, longe da sombra, que a nova vida rompe a terra.

Transformai-vos!


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