Sempre que vou falar sobre fé e ciência, sinto aquela tensão no ar. Parece que nós, cristãos, fomos treinados para ver o laboratório como um campo de batalha, onde a Igreja entra na defensiva. Mas, recentemente, fui levado a uma jornada de “conversão do olhar” que preciso registrar aqui.
Minha pesquisa começou com a questão do tempo e da soberania de Deus e a física de Wheeler que propõe o “Universo em Bloco”. Passado, presente e futuro existem simultaneamente numa geometria estática. O ano 3000 já está lá! Isso é a tradução matemática do Nunc Stans (o Eterno Agora) de Agostinho. Deus não assiste à história quadro a quadro como nós, muito menos está dentro dela; Ele segura o rolo do filme inteiro nas mãos. Como diz Eclesiastes 3:15, “o que há de ser, já foi”. O que para mim é surpresa, para Deus é geometria, é design. Isso não me traz medo fatalista, mas um consolo tremendo sobre a segurança dos Seus decretos.
Com isso, mergulhei numa intersecção improvável entre dois gigantes separados por 1.500 anos: Santo Agostinho, o teólogo da graça, e John Wheeler, o físico que cunhou o termo “buraco negro”. O que encontrei não foi conflito, mas um dueto. Descobri que a física mais avançada do século XXI está literalmente, tateando no escuro, descrevendo a mesma majestade que Agostinho viu de joelhos em oração.
Nas suas Confissões, Agostinho luta para entender o Gênesis. Ele fala de um “Céu dos Céus” (Caelum Caeli) — uma realidade intelectual, sem forma, criada por Deus antes da matéria sólida, onde residem os decretos divinos. Para minha surpresa, a física moderna chegou a uma conclusão arrepiante chamada Princípio Holográfico. A teoria diz que tudo o que tocamos é apenas uma projeção de informações gravadas numa superfície bidimensional distante. Wheeler chamou isso de “It from Bit” (A Coisa vem do Bit). No fim das contas, o chão duro onde piso é feito de “palavras” (informação). O texto de Hebreus deixou de ser apenas um versículo para mim e virou uma descrição cosmológica: “Pela fé, entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.” — Hebreus 11:3 (NAA)
Por fim, Wheeler dizia que o universo precisa de um observador para se tornar real (o Princípio Participativo). Um universo sem consciência é um fantasma quântico. Isso ressignifica nosso papel como cristão. Nós somos a — Imago Dei — para olharmos para as estrelas, entendermos sua beleza e devolvermos isso a Ele em forma de adoração. O físico no laboratório não está afastando Deus; ele está (querendo ou não) cumprindo o mandato de Adão: dando nome a todo cosmos ao seu redor e dentro de si, descobrindo a linguagem do Arquiteto.
Saio dessa reflexão convencido de que a realidade é muito mais “mental” e “verbal” do que material. O universo é um poema que está sendo declamado agora mesmo. A física não desencantou o mundo; ela o reencantou. Ela me mostrou que viver pela fé não é fechar os olhos para a ciência, mas abri-los para ver que cada átomo é uma letra sustentada pela Palavra do Seu poder.
Que possamos olhar para a realidade nua e crua — seja a pura dor ou a beleza de uma galáxia — e ver ali a assinatura Daquele que é, que era e que há de vir.
PS.: Se você gosta destas intersecções entre fé e ciência, topo conversar com você sobre a Teoria dos Campos Efetivos, na qual tanto o tempo, quanto a gravidade só existem como derivações naturais do cosmos.
Nele, diante Dele e para Ele,
Lucas Pedro
Leituras recomendadas:
Confissões – Agostinho de Hipona e Gravitation – Charles Misner, John Archibald Wheeler e Kip Thorne
Descubra mais sobre Lucas Pedro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário