A igreja que dura

A igreja a qual faço parte foi assaltada mais uma vez. Passamos pela experiência de ter alguns bens levados pelos assaltantes e junto com isso aquela sensação de fragilidade e impotência que é peculiar deste momento. Porém, este fato trouxe à tona, de novo, aquela resolução antiga e reconfortante presente na nossa comunidade: Igreja somos nós! Sendo assim, preciso me corrigir. Apenas o prédio da nossa igreja foi assaltado mais uma vez.

Esta recordação me lembrou o trabalho do filósofo francês Henri Bergson sobre aquilo que ele nomeou de duração. Tenho estudado seu trabalho pois a forma como nossa vida se desenrola no tempo sempre me intrigou. Bergson foi bem fundo neste assunto e desenvolveu um excelente trabalho não só sobre passado, presente e futuro, mas principalmente sobre tudo aquilo que dura e que, portanto, atravessa estes momentos dispersos da experiência humana. Bergson defendeu que por meio da duração nós desenvolvemos a nossa bagagem temporal que, segundo ele, não é apenas um conjunto de memórias isoladas, mas uma construção espiritual e ontológica de nós mesmos.

“Segundo ele, a realidade do espírito é essencialmente memória, a qual conserva todos os seus momentos em uma duração ininterrupta, e os prolonga em direção ao presente. Desta forma, o espírito constitui veículo de um passado carregado de lembranças, conhecimentos impalpáveis e sutis, no qual cada conteúdo é rico e profundo. O espírito testemunha, portanto, um passado contínuo, no qual acrescentam-se silenciosamente inumeráveis experiências da pessoa.” (Astrid Sayegh)

Em termos mais simples; eu, você, nós, somos o semblante espiritual de uma duração interior. Somos, cada um, um mundo onde nada se perde. Portanto, como igreja somos uma duração coletiva, composta por pessoas que estão e que já foram. Por pessoas que não estão semanalmente conosco, mas ainda são, em suas durações, parte deste corpo. Isso nenhum ladrão pode levar, nem mesmo o maior deles, a morte. Não pode pelo simples fato de que duramos. Atravessamos o ontem e o hoje como indivíduos e como comunidade, num processo de coesão que se entrelaça continuamente.

Como disse o grande mestre Qohelet:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar; tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora; tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de ficar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.” Eclesiastes 3:1-8

Bergson desenvolveu em seu trabalho o que o grande sábio hebreu descreveu de modo poético, com a repetição e o paralelismo. Ou seja, todos estes tempos inevitáveis e contingenciais duram em nós e se entrelaçam de forma coesa, formando um grande tear que podemos chamar de vida, podemos chamar de EU. Porém, em Cristo Jesus, podemos chamar de corpo, podemos chamar de Igreja. Igreja que não dura no prédio, nem nos bens levados pelo assaltante, mas Igreja que dura porque atravessa o tempo, formando este tecido de palavras, atos, memórias e afetos que nos fazem um Nele.

“Eu lhes transmiti a glória que me deste, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim.”

Descubra mais sobre Lucas Pedro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑